março 27, 2013 -


Como criador do jogo Battle Scenes, primeiro card game colecionável a ser impresso e comercializado em larga escala em nosso país pela Copag, cabe a mim falar um pouco sobre sua mecânica, discorrer sobre sua história e suas características.

Primeiro card game colecionável? Do que estamos falando, afinal?

Para quem não conhece o assunto, card games (ou jogos de cartas) colecionáveis são um tipo de jogo que se pode colecionar – como se fossem figurinhas – e, obviamente, jogar. Existem vários modelos desses jogos sendo publicados no mundo, entre eles, o Pokémon TCG, que é produzido e distribuído no Brasil pela própria Copag.

Para quem já conhece o mundo dos card games e a forma como eles normalmente funcionam – suas coleções, construção de baralhos, etc. –, não há muito mais a ser dito. Battle Scenes terá uma variedade de 100 cards em sua primeira coleção, Universo Marvel, com cards comuns, incomuns, raros e as versões holográficas, super e ultra raras, sendo vendido em booster packs com 7 cards e apresentando dois decks temáticos, o de Heróis e o de Vilões. Tudo seguindo os moldes mais tradicionais dos jogos desse tipo.

O que inova em Battle Scenes, em minha opinião, além do fato dele ser um jogo originalmente feito todo em português, é a sua mecânica, razoavelmente diferente de tudo o que eu já vi em outros card games colecionáveis. E boa parte dessa diferença se deve ao formato como se paga custos de colocação dos cards de personagens e suportes em cena.

A primeira ideia que tive na concepção de uma mecânica inovadora para o jogo foi garantir uma maneira para que todos os cards pudessem servir como “combustível” para pagar custos e baixar coisas na mesa. Com esse objetivo na cabeça, rabisquei, recortei, pintei e bordei em meus esboços até chegar ao conceito de Carregar, que é como se coloca em cena cards de personagens e suportes em Battle Scenes. Uma ideia até certo ponto simples – mas que parecia ser pouco usada em outros card games – que trataria a pilha de descartes como uma fonte de Recursos, empregando os cards dali como energia para custear a colocação de outros cards em jogo. Ideia esta que foi estendida de forma a usar estes cards descartados também como marcação de vida para os personagens e suportes, além de servirem também como fontes de habilidades extras para aqueles personagens.

Os primeiros cards de habilidades que elaborei me deixaram empolgadíssimo com as possibilidades do jogo: em uma partida de Battle Scenes, constrói-se os personagens anexando a eles cards que foram descartados, muitos dos quais são cards de habilidades que conferem novas ações àqueles personagens, caso os mesmos possuam poderes compatíveis. Conforme sofrem dano, os personagens vão sendo “descarregados” desses cards, enfraquecendo e perdendo suas habilidades. Os cards desanexados retornam ao descarte, renovando os Recursos e permitindo que novos personagens e suportes sejam construídos. Alie-se a tudo isso a fórmula de capacitar e incapacitar os personagens, que poderiam executar ações tão mais poderosas quanto mais capazes estivessem, e o jogo estava praticamente definido.

Minha segunda ideia nada tinha a ver com inovação ou diferença. Bem ao contrário. Battle Scenes viria a ser um jogo com a marca e personagens do universo Marvel, o que me jogava ao encontro de infinitos confrontos e acontecimentos épicos envolvendo os praticamente infinitos personagens, lugares, cenários e objetos típicos dos quadrinhos, desenhos animados e filmes desse universo. Eu queria que o jogo pudesse reproduzir de um modo convincente as ações e os combates dos personagens do mundo criado por Stan Lee e seus colegas, sem desviar um milímetro que fosse daquela minha primeira ideia de mecânica, de montar personagens na mesa carregando-os de cards úteis.

Por exemplo, todo mundo que curte Marvel ou assistiu Os Vingadores no cinema sabe que tanto o Capitão América quanto Thor utilizam equipamentos específicos, que são o escudo de adamantium e o mítico martelo Mjölnir. E todo mundo sabe que estes dois personagens são mestres em arremessar essas suas armas, atingindo os adversários… Seria possível ajustar o conceito de construir os personagens na mesa, carregando-os com cards do descarte, e permitir que ações e habilidades típicas, como os arremessos de escudo e martelo, pudessem ser reproduzidas, conferindo realismo ao jogo?

A solução mais óbvia foi transformar o escudo do Capitão e o martelo Mjölnir em cards de habilidades, que podem ser anexados, ou carregados aos personagens. O problema é que nem todo mundo tem o talento do Capitão América para arremessar seu escudo, e ninguém, nem aqui e nem em Asgard, consegue nem mesmo erguer do chão o martelo de Thor (excetuando talvez seu pai, Odin). Além disso, Thor tem o hábito de chamar seu martelo para sua mão, e não pode voar nem lançar raios sem Mjölnir, e o Capitão América ainda consegue lançar seu escudo de modo que ele ricocheteie e atinja mais de um alvo em um único tiro, muitas vezes voltando a sua mão, noutras caindo por perto para facilitar a sua recuperação. Como fazer tudo isso acontecer de uma forma semelhante usando a mecânica de carregar em Battle Scenes?

Depois de quebrar um pouco a cabeça, cheguei aos seguintes cards para Thor e seu martelo e para o Capitão América e seu escudo:

Por serem itens únicos, só se pode ter uma única cópia de Mjölnir e do Escudo do Capitão América em cada deck. Em minha opinião, isso confere realismo ao jogo, e combina com a regra de só poder haver um único personagem de cada em cena, impedindo, por exemplo, que Thor tenha posse de mais de um martelo em algum momento da partida.

Pode parecer difícil obter um único card em um deck de sessenta, porém tanto Thor quanto o Capitão América conseguem “chamar” ou encontrar suas armas, buscando-as mesmo que estejam misturadas nos baralhos, usando as ações Recuperar Escudo e Recuperar Martelo de seus próprios cards para isso.

Por fim, com seu martelo, Thor poderá voar e conjurar raios e trovões, permitindo que ele use cards de habilidade de Vôo e Ataque Energético. Thor também poderá lançar Mjölnir, acertando um adversário com a ação de Arremesso de Martelo. Por sua vez, o Capitão América, de posse de seu escudo, ampliará suas defesas e, dependendo do esforço que fizer, ainda poderá atingir um ou dois alvos com seu Arremesso de Escudo.

Como designer do jogo, ficarei feliz se, durante os duelos de Battle Scenes, os jogadores e fãs conseguirem ver não apenas uma mecânica diferente, complexa e desafiadora, mas também essas relações entre os personagens, cenários e objetos do mundo Marvel.

Até a próxima!

 

*Fabian Balbinot é o criador de Battle Scenes – Universo Marvel.

  • Alain Kuhin

    Show…

  • Devo dizer que como jogador de diversos jogos de tabuleiro e card game, você fez um ótimo trabalho do design do jogo. Aguardemos as próximas coleções =-p

  • Sensacional!! Espero que Batle Scenes cresça muito no Brasil e ganhe muitas coleções! Esse jogo será um marco na história de TCG do Brasil!!!

  • Leonardo Macedo da Silva

    Muita boa mesmo a entrevista (aguardamos por outras) e a ideia de como o jogo é “desenrolado” durante uma partida. Genial o jogo e tem tudo para dar certo!

    OBS: esperando por uma coleção “Universo Games”, seria lindo se ocorresse uma batalha entre Kratos e Homem de Ferro, por exemplo

  • Romario11

    Excelente texto! Deu mais vontade de jogar o jogo e se imaginar como personagem num filme, desenho ou quadrinhos. Tenho certeza que o BATTLE SCENES será um sucesso!

  • Legal saber como foi a concepção desse jogo de cartas. Espero por mais.

  • Grato pelos comentários. Aguardem novos posts com mais sobre a história de BS, dicas de decks e curiosidades para breve. Convido a todos para os eventos de lançamento do jogo em diversas lojas da Livraria Cultura de todo o país, nos primeiros dois finais de semana de Abril. Abração.

    • Fabian, parabéns! Estou muito feliz de poder voltar a jogar Cards Games e de saber que foi desenvolvido por um brasileiro, ainda por cima com aval da Marvel. Espero que possamos ver essa coleção crescer muito e que outros cenários entrem: DC, Ben10, Dragon Ball e Thundercats são alguns. Não vejo a hora de começar!

  • Guest

    Um sucesso a caminho, e o melhor de tudo é que foi criado por um brasileiro, temos que nos orgulhar pos isso!!!!!

  • Aline Melo

    Um sucesso a caminho, e o melhor de tudo é que foi criado por um brasileiro, temos que nos orgulhar por isso!!!!!

  • disqus_Lsh3M8UyzL

    Fabian Balbinot, me chamo Antonio Carlos, como faço para entrar em contato contigo, gostaria muito de alguma sugestão ou dica de que caminho você trilhou para conseguir ter o seu jogo divulgado e finalizado. Tenho 4 idéias de cardgame já finalizadas e não sei por onde começar.
    Este é o meu e-mail: ANTONIOCJAJ@hotmail.com

  • Paulo Cesar

    Gostaria de agradecer a você fabian pela incrível criação realizada e o
    quão perspicaz foi sua mecânica de jogo deixando do início ao fim um
    jogo dinâmico e balanceado… Como admirador do mundo marvel, gostaria
    de saber se você irá focar somente em mundo marvel e todas as suas
    extensões ou pretende lançar outros mundos paralelos a esse descrito
    pelos outros colegas comentados…

  • Vitor Tonini

    Interessante saber desses processos! Espero ler mais sobre esse processo criativo. Especialmente o que anda rolando sobre a nova edição hehe =)

  • Antonio Aristides Mochi Junior

    Muito bom o conceito deste jogo. Realmente diferente de outros card-games existentes. Parabéns Fabian.
    Gostaria de que você avaliasse a regra que indica que o causador do dano escolhe as cartas do personagem a serem descarregadas, pois ao meu ver o controlador da criatura deveria escolher as cartas.
    Outra ideia é que na fase de preparação, o controlador de um personagem poderia carregar uma carta em um personagem, podendo limitar a apenas uma vez por turno ou para personagens capacitados em 2, e descarregando cards pra não passar de sua energia. Isto indicaria que o personagem está descansado do combate anterior e, principalmente, adiciona uma habilidade ao personagem já existente capaz de contornar uma situação ruim atual.
    Estas duas alterações, ao meu ver, trará nova emoção às partidas.

  • superstardj

    Só pra constar, não é pra ser chato :), mas o escudo do capitão é uma liga de adamantium com vibranium… Abraços.. 🙂